A Família

Terra Natal

Vargem do Cedro é um vilarejo espalhado num vale, no sul de Santa Catarina. Uma pequena vargem, apertada entre os montes dá nome ao lugar. O vale é bucólico, transformando-se hoje num centro procurado por visitantes, por sua paz e suas belezas naturais. Aquela região foi escolhida para abrigar imigrantes alemães no fim do século XIX. Eles chegaram trazendo consigo muitos elementos da sua cultura. Quase na sua totalidade católicos, a participação na missa e em outras cerimônias religiosas era praticamente obrigatória para todos. Cultivavam a língua alemã, os cânticos, a culinária. Erigida em paróquia em 1920, a comunidade transformou-se num celeiro de vocações religiosas e sacerdotais, a maioria destas últimas filiando-se à Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, que atendia à paróquia desde 1918, recebendo o título honroso de “Capital das Vocações”. Foi uma das primeiras paróquias que a Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus assumiu no Sul do Estado.

O Padre Jacó Gabriel Lux, scj, foi seu primeiro pároco, construtor da Igreja e da casa paroquial. “Grande batalhador em prol das vocações sacerdotais e religiosas. Cerca de uma dúzia de moços descobriu sua vocação sacerdotal sob a orientação do Padre Lux”.

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Aloísio nasceu ali, em 1913, a 24 de dezembro, às 23h; na época Município de Imaruí, hoje São Martinho. Foi o filho primogênito da família. Batizado no dia 26 de dezembro, na Paróquia São Sebastião, Vargem do Cedro, teve registro no Livro primeiro e Folhas número 25. O seu nome religioso é Sebastião. A crisma deu-se no dia 22 de janeiro de 1914 e registrado no primeiro Livro da Paróquia, na folha número 04.
Seus pais, João Boeing e Josephina Effting Boeing; seus avós paternos, Henrique Boeing e Anna Rocha, e, maternos, Antônio Effting e Joanna Pottmaier. Uma família de sete filhos legítimos e dois adotivos. Em família, falavam só o alemão.
O pai era uma pessoa profundamente religiosa, de missa diária. A mãe era muito devota de Nossa Senhora e de São José. Foi nesse ambiente que Aloísio desenvolveu a sua vida e personalidade na infância: num lar de pais piedosos e acolhedores, que partilhavam o que tinham com os mais necessitados. No seu coração ficou gravado o modo de ser e de viver eucaristicamente de seus pais. Eles recebiam Jesus na Eucaristia com frequência e viviam, na prática, numa solidariedade efetiva.
O registro civil de nascimento foi feito pelo pai, na Comarca de Imaruí, município de São Martinho, Estado de  Santa Catarina, sendo oficial de justiça Maria de Oliveira Sá, no dia 1º. de abril de 1914, sem testemunhas; lavrado no Livro A-3, folhas 38v, sob número de ordem 170.
Em seguida, nasceu Antônio, casado com Leopoldina Rech. Este casal ficou morando em Vargem do Cedro, na residência dos pais e tiveram dez filhos. Um deles é Sacerdote – Padre João Boeing, scj, que reside em Rio Negrinho e é pároco da paróquia Santo Antônio. Outros filhos chamavam-se: Adelaide, casada com Georg Helmann, residentes em Vargem do Cedro; tiveram onze filhos, três deles se tornaram sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus: Padre José João (egresso), Padre Francisco Helmann (falecido) e Padre Gabriel Helmann (egresso); Alzira, casada com Arno Steiner, tem oito filhos, moram em São Martinho;  Maria, casada com Francisco Helmann, tem sete filhos e reside em Vargem do Cedro; Águeda, que foi chamada por Deus a ser religiosa, com o nome de  Irmã Serena, da Congregação das Irmãs Franciscanas de São José, hoje mora em Angelina (SC); ela foi Madre Geral da sua Congregação, morando na Holanda; Henrique, que nasceu no dia 02 de setembro de 1925, foi ordenado sacerdote dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, no dia 08 de dezembro de 1953, e faleceu de doença, no dia 11 de janeiro de 1997, em Jaraguá do Sul. Além destes sete, adotaram mais dois filhos: João, residindo atualmente no Paraná e Maria Verônica Boeing Junklaus, viúva, residente em Balneário  Barra do Sul.
Sua família gostava e gosta muito de cantar. Onde se reúnem, já fazem um coral para cantar cantos alemães e outros folclóricos. O próprio Aloísio levava essa marca familiar e gostava muito quando se cantava nos recreios e viagens.

O Chamado

A sua vida pacata na roça tinha os seus dias contados. Havia um padre, recrutador de vocações, o P.Inácio Burrichter, scj, que passou na sua paróquia. Ele ensinava aos meninos que, no seminário, só se andava de bicicleta, tomava banho no rio, jogava bola e comia pão de trigo… Este sacerdote, conversando com as crianças da catequese, perguntou: “- Quem quer ser Padre?” Aloísio logo levantou o braço, sem muito pensar no que este gesto comportava. E o procurador vocacional já começou a se interessar por ele e falar sobre o assunto com o meu pai… tinha ele então apenas dez anos. Mais tarde, aos 65 anos de sacerdócio, contava, sorrindo, que pensou em ser padre para comer pão de trigo, pois via que os padres comiam só pão de trigo. “Na mesa do nosso vigário, havia só pão de trigo, isso me atraiu para ser padre… E agora nem como pão de trigo!”

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1925 – Em Brusque/SC

Iniciou os seus estudos até a 4ª. Série na Escola “Rodolfo Feuser”, em Vargem do Cedro, nos anos de 1920 até 1924. Com onze anos, aos 11 de fevereiro de 1925, incentivado pelo pároco, ele saiu de sua terra natal, com outros três colegas. Um deles voltou para casa, mais tarde.

A viagem

Viagem quase homérica foi a da primeira turma de seminaristas do Sul até Brusque. Aloísio Boeing, João Stuepp, Conrado Rech e Gabriel Hoeppers tinham a companhia do Vigário Pe. Gabriel Lux. A primeira etapa, de Vargem dos Cedros (São Martinho) a Porto Tomás (Aratingaúba), foi vencida a cavalo. Coisa de meio dia.Um cavaleiro os acompanhou até lá para trazer os cavalos de montaria. Esse ponto de embarque os seminaristas o conheciam como Porto Effting. Pois era por lá que o sr. Antonio Effting fazia suas viagens.

Todos embarcaram numa grande lancha. Encravando sucessivamente, varejões de bambú no leito da lagoa do Imaruí, os remadores impulsionavam a lancha em direção de Cabeçudas. Em algumas horas, lá chegaram. Pernoitaram em ranchos de pescadores. No dia seguinte, prosseguiram viagem de trem até Tubarão. Na Casa Paroquial encontraram-se com outro grupo de seminaristas: Jorge Brand, Walter Holdhausen, Francisco Corbetta, um tal de Ulinao e outros.

No terceiro dia de viagem, os dois grupos de seminaristas tomaram o trem Tubarão-Imbituba. Surpresa agradavel para eles foi o encontro e companhia de vários padres da região de Tubarão, a caminho de Florianópolis, para o retiro espiritual. Na estação terminal de Imbituba o trem ficou estacionado a noite toda. Serviu-lhes de dormitório gratuito.

Vários navios costeiros (paquetes) faziam a rota Imbituba-Florianópolis-Itajaí-Araranguá. Os mais conhecidos eram: Max, Anna e Ita. Viajaram com o terceiro. Havia algumas cabines e beliches. Os seminaristas se acomodavam em qualquer lugar. Até sobre bancos. Esses paquetes jogavam muito. Provocavam frequentes enjôos. Os seminaristas os apelidaram de cabritos do mar. Após um dia e uma noite chegaram a Florianópolis.

Os padres desembarcaram e foram de lanchas até a Ilha, rumo à Casa de Retiros. Aos seminaristas restavam mais umas cinco horas de navegação até Itajaí. Chegaram no dia dois de fevereiro (1925). Dando-se o encontro do Ita com os barcos da procissão de Nossa Sra. dos Navegantes. Um surpreendente e maravilhoso espetáculo para os coloninhos do Sul.

A etapa final (Itajaí-Brusque) foi de caminhão. Quarenta quilômetros igualmente nada fáceis. Em cada morrinho era todo mundo desembarcar e empurrar o caminhão do Sr. Knihs. Em Brusque foram recepcionados pelo incansável Pe. Germano. Um grupo foi encaminhado para o Seminário. Outro foi acomodado no 3º pavimento da Casa Paroquial. Já faltava espaço.

Curta e interessante é a conclusão de Pe. aloísio Boeing: “Para alguém fazer essa viagem, ponderou ele, era preciso ter vocação. E se alguém ainda não tivesse vocação, certamente a teria no fim da viagem…”

Aloísio ficou três anos sem voltar para a casa dos pais. Depois de um ano, os seus pais foram visitá-lo e levaram um novo irmão que, nesse tempo, nascera. Esse irmão, mais tarde, também se tornou Sacerdote, Padre Henrique Boeing.